Professores Não São Tios! Você Sabe Por Quê?

Professores Não São Tios! Você Sabe Por Quê?

A saída da criança do seu primeiro núcleo social, a família, para um espaço escolar que é especificamente mais amplo e coletivo, ainda gera incertezas e preocupações sobre o tipo de atenção que uma criança pequena receberá com poucos adultos à sua volta. Em tal caso, evidentemente, chegam sem conhecer a rotina e os aspectos pedagógicos que cingem a dinâmica de uma escola e, despretensiosamente, chamam os professores de tias ou tios, muito possivelmente expressando sua incompreensão quanto ao uso impróprio do termo. Por outro lado, também percebemos que os próprios professores sabem pouco sobre a importância de não serem chamados assim.

Certa vez, no hall de uma escola de Educação Infantil, eu conversava com algumas mães¹ sobre o uso desse termo. Percebi que elas o defendiam rigorosamente por dois motivos: primeiro, por considerarem muito carinhoso chamar de tia² uma professora que está com crianças pequenas (fazendo menção nostálgica ao tempo em que frequentavam a escola) e, segundo, por sentirem segurança em deixar seu filho com uma professora que chamam de tia, pois chamá-la assim demonstra o quanto “se parece como uma mãe” para os seus filhos, substituindo-as no momento de ausência³. Nesse instante, eu seriamente perguntei a elas: “– Quando vocês levam seus filhos ao médico, vocês também buscam uma mãe ou preferem um profissional?” Unanimemente responderam: “– Um bom profissional!” A partir dessa resposta comecei a desenvolver a defesa sobre o que elas realmente deveriam buscar em um professor, fazendo analogias com a responsabilidade e a boa formação que exigem de tantos outros profissionais.

Recordando a trajetória da profissão no Brasil, desde a Ratio Studiorum, que regimentava a educação jesuítica, era comum os professores exercerem autoridade sobre os alunos, especificamente com o uso de castigos corporais. Com o passar do tempo, as pessoas adquiriram mais compreensão sobre direitos humanos, como liberdade e proteção, e a prática desse tipo de castigo começou a ser repensada. Nesse período, surgiu o movimento higienista, que assumiu um importante papel, pois, além de defender que a criança era indefesa e precisava de cuidados, rechaçava os castigos físicos e incentivava as denúncias.

Nesse contexto, as mulheres, ao se inserirem no mercado de trabalho, começaram a pensar no perfil de professor com o qual desejavam deixar seus filhos: se era com um adulto autoritário ou com alguém cuidadoso e afetuoso. Embora não tenhamos registros precisos de quando as professoras começaram a ser tratada de tias, essa pode ser uma possível explicação da origem do uso do termo, pois uma tia que cuidasse bem de seus filhos era o que as mães esperavam do comportamento de uma professora (NOVAES, 1992).

No livro “Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar”, de Paulo Freire (1997), encontramos reflexões categóricas acerca desse assunto. O texto reitera a importância de não reduzir a profissão de professor a uma condição de tia ou tio. A admirável tarefa de ensinar jamais transformará um professor em tio, assim como tios não se tornarão professores pela situação de terem sobrinhos. Ensinar exige uma formação específica e a apropriação de uma profissão; já ser tia ou tio é estar numa condição de parentesco, sem exigências formais e profissionais.

Embora a argumentação de Paulo Freire não pretenda de modo algum marginalizar os tios, ela nos traz discernimento a respeito do porquê não chamarmos professores assim, pois, com isso, minimizamos ou, até mesmo, retiramos suas responsabilidades profissionais e a premissa política e legal que sua formação exige. Professores assumem um importante papel social e o uso do termo tia ou tio torna a profissão banal, tendo em vista sugerir que qualquer um possa ser professor.

Nesse ínterim, o autor aponta os aspectos ideológicos de um governo que, entre as décadas de 1960 e 1970, preferia ter “professoras-tias”, apelando para o lado maternal e afetuoso de muitas mulheres que assumiam essa profissão. Essa ênfase inibia ações tais como deixar seus alunos para se envolverem em militâncias e reivindicações, desqualificando-as perante a sociedade.
Muitas famílias ainda precisam compreender que entre professores e alunos há uma relação formal e profissional que não dispensa carinho e respeito. Eminentemente, precisamos primar por uma escola que invista em professores com formação qualificada, pois o compromisso com o processo de ensino e aprendizagem dos alunos excede a relação de cuidados e afetos, exigindo longos e constantes anos de formação acadêmica e continuada.

 

 

¹. Poderiam ser pais, avós ou outra pessoa com um determinado grau de parentesco, mas eram exatamente mulheres, mães, que me questionavam sobre o motivo de não chamarem as professoras de tias.

². Aqui estou utilizando especificamente “tia”, no feminino, porque esse episódio ocorreu em uma escola onde todas as professoras eram mulheres.

³. Não pretendo usar a fala desse pequeno grupo de mães para generalizar, afirmando que todos chamam professores de tios por esses motivos. Faço o relato apenas como um exemplo de uma oportunidade que tive para conversar com as famílias e, com elas, pensar melhor sobre essa questão.

⁴. Inicialmente a profissão era predominantemente assumida por mulheres, por isso optei pelo termo no feminino.

 

REFERÊNCIAS

FREIRE, Paulo. Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar. São Paulo: Olho d’Água, 1997.

NOVAES, Maria Eliana. Professora primária: mestra ou tia. 5. ed. São Paulo: Cortez, 1992.

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